A mulher saindo do edifício do outro lado da rua é lésbica. Mora há dois anos com uma tal de Cláudia. Tudo indica que esteja indo comprar roupas pro filho que esperam e que há muito desejavam.
Semana passada, eu e alguns amigos fizemos um bolão com a idéia de adivinhar quem é o pai do dito cujo. Podia ser o padeiro, o entregador de pizzas e até o Seu Arnaldo, um senhor de 62 anos que coleciona revistinhas pornôs desde 1963.
Contrariando a maioria, apostei tudo no porteiro Wanderley. Este deve ter em torno de 30 anos e é desses caras solitários que passam as madrugadas assistindo seriados enquanto comem doritos e bebem achocolatado.
É preciso deixar claro que duas janelas do apartamento onde Cláudia fazia sua mulher se sentir como tal, ficam de frente com a do meu quarto. Só Deus sabe quanto tempo já passei observando elas “brincarem”.
Alguns meses atrás, Wanderley entrou no apartamento onde foi bem recebido pelas moças. Durante vinte minutos, conversaram e riram muito. Enquanto parecia tentar se acomodar no sofá estampado com flores, foi convidado a dividir uma garrafa de vinho com as duas. A noite prometia.
Dirigiram-se ao quarto. Nesse pequeno pedaço de tempo imaginei o que se passava pela cabeça do porteiro mais feliz da Terra. Talvez não pensasse em mais nada. Eu não pensaria. Antes de apagarem as luzes só consegui ver a cara redonda, rosada e sorridente do nosso herói. Se sentiu como um Messias.
O porteiro que viraria pai se enfiando num ménage à trois com lésbicas.
Uma lenda.