rafaela desceu as escadas do sobrado, atravessou a sala e avistou a rua. era uma manhã fria de outono. as folhas transformavam a calçada numa espécie de tapete laranja-enferrujado, e o nariz ela não sentia mais. graças ao vento.
eram alguns metros até a padaria. sua mãe tivera lhe dado um bilhete com os dizeres: “compre o pão pro café. ou morra”. no verso dizia: “brincadeirinha. com amor, mamãe”. ela não gostava do senso de humor peculiar da sua família. nem um pouco.
comprou os pães. gostou quando percebeu que estavam quentes. tanto que segurou com muito cuidado, com as palmas das mãos abertas pra conseguir aquecer as mesmas. no meio do caminho cogitou enfiar o rosto dentro do saco, pra ver se conseguia sentir sua face novamente.
ao chegar, seu irmão mais velho estava terminando o café. a vida deles era assim todos os dias.
perderam o pai logo após o nascimento dela. num acidente de carro. então a mãe teve que fazer o papel dela e o do marido, começando a trabalhar. aliás, quem fazia muitas vezes o papel de mãe era o irmão de rafaela. ele era oito anos mais velho. cozinhava, ajudava na faxina, passava roupas. isso até conseguir uma bolsa na universidade da cidade, o que causou a raiva da garota, porque acabou “herdando” os afazeres do irmão.
os dois tomaram café, e ele foi logo se aprontando pra faculdade. ela ficou na sala assistindo desenhos.
ele desceu as escadas, pegou a mochila cheia de livros e deu um beijo em sua testa. antes de fechar a porta deixou um papel sobre a mesa.
rafaela se aproximou e leu: “lave a louça. ou morra”. no verso: “é sério. te amo”.