Arquivo para Junho, 2008

pai

o contato que tenho com meu pai sempre foi distante, mesmo morando embaixo do mesmo teto. ele sempre sai cedo pra trabalhar, quando ainda estou dormindo, e sempre chega tarde. chegava tarde, já que vendeu o bar em que trabalhou durante dez anos, pra nos sustentar, e ficou com o mercado. ele trabalha menos agora, mas ainda assim não nos encontramos direito porque estudo à noite.

a figura paterna sempre foi ausente na minha vida. nos poucos momentos em que ficamos juntos em casa, ele dorme e eu fico trancado no quarto. me arrisco a dizer que mal sinto saudade dele.
como vou sentir saudades de alguém que não consigo sustentar uma conversa legal e/ou interessante por mais de cinco minutos?

na tv, volta e meia aparece aquela figura do pai tradicional. aquele que ajuda o filho a andar de bicicleta, que joga futebol, que sabe até mesmo o que ele gosta de comer. sempre que indagam ao meu pai “qual a idade do seu filho?” ele precisa confirmar, se não, não lembra.

- “você tem vinte anos, já?”
- “não pai, tenho dezoito”

claro, isso com qualquer um dos dois filhos dele.

me recordando das últimas conversas nossas, percebo que não são conversas de pai-filho. são conversas normais. talvez ele se esforce mais que eu pra isso melhorar, mas talvez ele nem perceba nada.
ressalto ainda a diferença de como enxergamos a vida. posso dizer que ele é um escravo do próprio trabalho, que não sabe aproveitar a vida visando o prazer próprio [a não ser que o trabalho seja a sua maior fonte de felicidade, já que conseqüêntemente trará dinheiro. o que me levaria a ter pena dele, já que suponharia que pense que dinheiro é a coisa mais importante dessa coisinha chamada vida], não sabe aproveitar a família, etc. são sempre negócios, negócios, negócios. business, business, business

daqui a pouco passo numa faculdade, mudo de cidade e tchanãaa! já não teremos nem mesmo esses pequenos diálogos de finais de semana.

entretanto, não o culpo pela falta dessa figura paterna na minha formação. se ele sempre foi ausente é porque sempre trabalhou pra dar o melhor pra nós, pra família dele. acredito firmemente, também, que nada do que ele me deu, até hoje, fará mais falta do que a presença dele no meu dia-dia, no meu crescimento, na minha aprendizagem.
é um tempo que não volta. é um tempo que não dá pra recuperar.

alambrado

conversamos sentados durante um bom tempo. umas duas horas, acho. ela sempre tinha respostas maiores, então acabava falando mais. coisa normal de mulher.
você pergunta se querem água e elas contam praticamente a história inteira de vida delas, do avô e do cachorro. acabam não respondendo absolutamente nada.

a lua brilhava alta no céu, parecendo um pequeno sol, as folhas faziam barulho graças ao vento, e eu tinha que ir. a beijei no rosto e ela me encarou de uma forma estranha. durante dois segundos me forcei ao máximo pra saber o que se passou pela cabeça dela.
talvez devesse ter lhe beijado, mas criei um bloqueio mental, acho. aparece a oportunidade de qualquer espécie de envolvimento com uma garota e uma grande placa na minha cabeça pisca em vermelho a palavra “danger!”.

conversamos mais trinta minutos. dessa vez levantei do banco, tomando iniciativa. uma pessoa de pouca atitude eu sou, pensei. digo que vou embora e demoro mais de meia hora pra conseguir isso.
ela caminhou comigo até a porta do condomínio, onde conversamos durante mais uns vinte minutos.
loser.

ao primeiro sinal de falta de assunto anunciei novamente: vou embora. é, eu tinha que ir, eu queria ir. mas um pedaço de mim, não.
a abracei e assutado percebi que ela tinha cheirado meu pescoço. “é bom”, ela disse. eu gostei disso.
imediatamente após o susto, um outro. “me cheira”, ela ordenou. fiquei sem jeito, e cheirei. disse que o cheiro era bom, também.

no final do abraço ela tentou por duas vezes segurar minha mão. foi estranho.
ela caminhou em direção ao portão e eu fui embora. seis metros depois a procurei por entre o alambrado, e ela me olhava. comemorei mentalmente, e jurei nunca mais voltar.

heróis

só vejo a tristeza que muitas vezes a vida é. vejo pessoas que se amam brigando e, muitas vezes, não se reconciliando. o pior, quase sempre por coisas fúteis, sem sentido.
vejo a destruição que o homem causa no mundo. as árvores caem. queimam. gritam.
as cidades viraram selvas, com o perigo estando logo à frente. as pessoas morrem pedindo o socorro que não chega. o egoísmo infesta o mundo.
a raiva também.

o homem me dá, a cada dia que passa, menos orgulho de ser um homem. de ser humano.
a vida me dá, a cada instante, um bom motivo pra desistir de viver.
ou pra não parar de lutar.

“triste é o povo que precisa de heróis”

lamento a criação diária deles.

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Do autor:

@morazen