o contato que tenho com meu pai sempre foi distante, mesmo morando embaixo do mesmo teto. ele sempre sai cedo pra trabalhar, quando ainda estou dormindo, e sempre chega tarde. chegava tarde, já que vendeu o bar em que trabalhou durante dez anos, pra nos sustentar, e ficou com o mercado. ele trabalha menos agora, mas ainda assim não nos encontramos direito porque estudo à noite.
a figura paterna sempre foi ausente na minha vida. nos poucos momentos em que ficamos juntos em casa, ele dorme e eu fico trancado no quarto. me arrisco a dizer que mal sinto saudade dele.
como vou sentir saudades de alguém que não consigo sustentar uma conversa legal e/ou interessante por mais de cinco minutos?
na tv, volta e meia aparece aquela figura do pai tradicional. aquele que ajuda o filho a andar de bicicleta, que joga futebol, que sabe até mesmo o que ele gosta de comer. sempre que indagam ao meu pai “qual a idade do seu filho?” ele precisa confirmar, se não, não lembra.
- “você tem vinte anos, já?”
- “não pai, tenho dezoito”
claro, isso com qualquer um dos dois filhos dele.
me recordando das últimas conversas nossas, percebo que não são conversas de pai-filho. são conversas normais. talvez ele se esforce mais que eu pra isso melhorar, mas talvez ele nem perceba nada.
ressalto ainda a diferença de como enxergamos a vida. posso dizer que ele é um escravo do próprio trabalho, que não sabe aproveitar a vida visando o prazer próprio [a não ser que o trabalho seja a sua maior fonte de felicidade, já que conseqüêntemente trará dinheiro. o que me levaria a ter pena dele, já que suponharia que pense que dinheiro é a coisa mais importante dessa coisinha chamada vida], não sabe aproveitar a família, etc. são sempre negócios, negócios, negócios. business, business, business…
daqui a pouco passo numa faculdade, mudo de cidade e tchanãaa! já não teremos nem mesmo esses pequenos diálogos de finais de semana.
entretanto, não o culpo pela falta dessa figura paterna na minha formação. se ele sempre foi ausente é porque sempre trabalhou pra dar o melhor pra nós, pra família dele. acredito firmemente, também, que nada do que ele me deu, até hoje, fará mais falta do que a presença dele no meu dia-dia, no meu crescimento, na minha aprendizagem.
é um tempo que não volta. é um tempo que não dá pra recuperar.