Arquivo para Julho 5th, 2008

cobertas

luís soltava um sorriso quando chovia. gostava de ver a água correndo pelo asfalto da rua e as árvores se refrescando. sempre ficava em frente à janela observando durante dez, vinte minutos, tudo o que acontecia do lado de fora. na maioria das vezes não acontecia nada, claro. as ruas ficavam desertas e silenciosas, salvo o barulho da água caindo. comparava um dia cinza, como esse, com sua vida.

luís era como um coadjuvante, era como um figurante da vida alheia. nunca foi o pior nas coisas que fazia, mas estava longe de ser o melhor também. não tinha pretenções, e era indiferente quanto a falta que certas coisas o faziam. passava boa parte dos dias mergulhado no mundo de pensamentos que criava dentro de si. não se achava bonito, nem feio. as pessoas concordavam com isso.

um dia pensou em mudar. “porque não?” – nada mais justo.
se sentiu confiante, seguro e disposto. vestiu sua melhor roupa, uma coisa básica: aquela camiseta branca, o jeans meio gasto e allstar. até criou coragem pra pentear o cabelo. colocou perfume, mas parou nisso. viu sua imagem refletida no espelho e caiu em si. “não sou eu”. não era ele. desejou ficar embaixo das cobertas grossas de sua cama durante semanas, meses. queria esquecer da vida que tinha. queria que o mundo o esquecesse. enquanto se perdia na quantidade de pensamentos infelizes sobre sua existência, dormiu.
de manhã chovia.

sorriu.


Do autor:

@morazen