O velho acordou e logo lançou um olhar pesado em direção à janela. Era outono e o dia estava frio, cinzento.
Se vestiu e preparou o café. Leite, pães-franceses, margarina, bolachas e uma maçã. Pensou em porque insiste em chamar de café-da-manhã uma refeição que não tem café.
Já se passavam dois meses desde que Ela tivera partido. Eram casados desde jovens e não houve um dia em que não tivesse rezado baixinho, agradecendo a sorte de ter encontrado o amor de sua vida.
Moravam na mesma casa durante os cinquenta e três anos de casamento. Por nunca terem filhos – ela era estéril – vivia organizada e ostentando toda aquela mobília antiga, em madeira mogno.
Em outubro passado foi diagnosticada com um câncer. Um daqueles terminais.
Os últimos meses foram bem vividos. Viajaram, realizaram algumas visitas aos amigos mais próximos, mas o que ficou fixado em sua cabeça foi o casamento surpresa preparado pelo amado, preocupado em demonstrar o quanto ainda a amava. Morreu na véspera do seu aniversário. Quando dormia.
Antes os cafés-da-manhã daquele mereciam ser chamados de cafés-da-manhã. Antes ouvir ‘bom dia’ fazia sentido.
O velho pôs seu sapato e o sobretudo marrom. Saiu na rua mesmo sabendo que já garoava e que isso ia piorar sua gripe forte.
Sentiu-se vazio.