Arquivo para Agosto, 2008

café

O velho acordou e logo lançou um olhar pesado em direção à janela. Era outono e o dia estava frio, cinzento.
Se vestiu e preparou o café. Leite, pães-franceses, margarina, bolachas e uma maçã. Pensou em porque insiste em chamar de café-da-manhã uma refeição que não tem café.

Já se passavam dois meses desde que Ela tivera partido. Eram casados desde jovens e não houve um dia em que não tivesse rezado baixinho, agradecendo a sorte de ter encontrado o amor de sua vida.
Moravam na mesma casa durante os cinquenta e três anos de casamento. Por nunca terem filhos – ela era estéril – vivia organizada e ostentando toda aquela mobília antiga, em madeira mogno.

Em outubro passado foi diagnosticada com um câncer. Um daqueles terminais.
Os últimos meses foram bem vividos. Viajaram, realizaram algumas visitas aos amigos mais próximos, mas o que ficou fixado em sua cabeça foi o casamento surpresa preparado pelo amado, preocupado em demonstrar o quanto ainda a amava. Morreu na véspera do seu aniversário. Quando dormia.
Antes os cafés-da-manhã daquele mereciam ser chamados de cafés-da-manhã. Antes ouvir ‘bom dia’ fazia sentido.

O velho pôs seu sapato e o sobretudo marrom. Saiu na rua mesmo sabendo que já garoava e que isso ia piorar sua gripe forte.

Sentiu-se vazio.

Ir embora

Quando a Rita chegou em casa e disse “Zé, tô grávida, fodeu!” eu dei risada. A gente passava pro terceiro ano da faculdade e o segundo de namoro. Ela não queria ter um filho. Não agora. Não comigo.

Já fazia um certo tempo que as coisas não caminhavam bem entre nós. As desavenças sucessivas acusavam esse desgaste.
Quando a Bianca nasceu, me transformou no homem mais feliz do mundo.
A Rita fugiu dois dias depois do nascimento da nossa filha, e me vi como um homem. Não o mais feliz do mundo, mas sim como um homem, só. Inseguro, abatido, triste…

No começo, mesmo em meio a um turbilhão de novos acontecimentos, eu fui bem. A gargalhada dela fazia meus olhos marearem e minha boca abrir mostrando os dentes um pouco mais amarelados do que os de costume, por causa do café que tomava e que me ajudava a ficar acordado e cuidar dela durante as noites em que não parava de chorar. Até isso era prazeroso. Não o café, mas ficar cuidando dela.
Só a felicidade dela me importava. Só ela me deixava feliz.

Com nove anos a Bia foi embora. Nem os médicos souberam me explicar como.
Uma morte súbita.
A única coisa que me importava nessa vida tivera ido. Pra sempre.
Perder um filho é como morrer duas vezes. É você morrendo porque uma parte de você morreu, e morrendo de novo porque não pode fazer nada, a não ser lamentar.

Mais uma vez me senti sozinho. E mais uma vez a vida brincou comigo.
Não gosto de brincadeiras.

Não mais.

janeiro de 2029

Moro sozinho num apartamento, aqui mesmo em São Paulo. O edifício fica numa daquelas ruas que cortam a Paulista.

Já faz dez anos que não vejo minha família. Meu pai continua trabalhando apesar dos problemas de saúde, decorrentes da própria compulsão em ’sustentar’ a gente. Mamãe ainda vive com ele, mesmo dizendo não mais aguêntá-lo. Acredito veemente que os dois devem ter aumentado suas doses de anti-depressivos depois que saí de casa. E devem ter aumentado novamente depois que meu irmão saiu em busca da sua felicidade. Ele vive em Curitiba e trabalha numa faculdade. É professor. De longe, é o mais bem sucedido de todos nós. Fico feliz por isso.

Depois do término do curso na faculdade e de seguidos fracassos pessoais, minha depressão aumentou e acabei virando um assíduo freqüentador dos bares paulistas.

Tentei me matar duas vezes. Fracassei miseravelmente em ambas.

Hoje, “recuperado”, trabalho numa livraria. Ela fica expremida por entre os prédios do centro. Qualquer dia peço demissão, não sei. Ainda tenho alguns ataques de fobia e isso ainda atrapalha muito a vida, é claro.

Não sei mais o que é sair e compartilho meus bons e maus momentos com o sofá, quando não, com a cama.
Tenho apenas um amigo, realmente. Um boneco velho que encontrei largado em frente ao portão de um dos prédios que ficam no meio do caminho, entre meu apartamento e meu serviço. Ele é caolho e perdeu um braço, também. É pra ele que conto meus segredos, medos e as coisas interessantes do dia-dia.

O nome dele é Linus.

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Do autor:

@morazen