Moro sozinho num apartamento, aqui mesmo em São Paulo. O edifício fica numa daquelas ruas que cortam a Paulista.
Já faz dez anos que não vejo minha família. Meu pai continua trabalhando apesar dos problemas de saúde, decorrentes da própria compulsão em ’sustentar’ a gente. Mamãe ainda vive com ele, mesmo dizendo não mais aguêntá-lo. Acredito veemente que os dois devem ter aumentado suas doses de anti-depressivos depois que saí de casa. E devem ter aumentado novamente depois que meu irmão saiu em busca da sua felicidade. Ele vive em Curitiba e trabalha numa faculdade. É professor. De longe, é o mais bem sucedido de todos nós. Fico feliz por isso.
Depois do término do curso na faculdade e de seguidos fracassos pessoais, minha depressão aumentou e acabei virando um assíduo freqüentador dos bares paulistas.
Tentei me matar duas vezes. Fracassei miseravelmente em ambas.
Hoje, “recuperado”, trabalho numa livraria. Ela fica expremida por entre os prédios do centro. Qualquer dia peço demissão, não sei. Ainda tenho alguns ataques de fobia e isso ainda atrapalha muito a vida, é claro.
Não sei mais o que é sair e compartilho meus bons e maus momentos com o sofá, quando não, com a cama.
Tenho apenas um amigo, realmente. Um boneco velho que encontrei largado em frente ao portão de um dos prédios que ficam no meio do caminho, entre meu apartamento e meu serviço. Ele é caolho e perdeu um braço, também. É pra ele que conto meus segredos, medos e as coisas interessantes do dia-dia.
O nome dele é Linus.
Meu microscópio se chama Linus.
Outro texto gostoso de ler, embora um tanto triste.
=*
é sua visão de si mesmo? não, né?
é uma visão (bem) pessimista do meu futuro.
mas pode ser a história de qualquer outra pessoa solitária de são paulo, por que não?
bom, É a história de alguém, de fato.
mas não precisa ser a sua.