Quando a Rita chegou em casa e disse “Zé, tô grávida, fodeu!” eu dei risada. A gente passava pro terceiro ano da faculdade e o segundo de namoro. Ela não queria ter um filho. Não agora. Não comigo.
Já fazia um certo tempo que as coisas não caminhavam bem entre nós. As desavenças sucessivas acusavam esse desgaste.
Quando a Bianca nasceu, me transformou no homem mais feliz do mundo.
A Rita fugiu dois dias depois do nascimento da nossa filha, e me vi como um homem. Não o mais feliz do mundo, mas sim como um homem, só. Inseguro, abatido, triste…
No começo, mesmo em meio a um turbilhão de novos acontecimentos, eu fui bem. A gargalhada dela fazia meus olhos marearem e minha boca abrir mostrando os dentes um pouco mais amarelados do que os de costume, por causa do café que tomava e que me ajudava a ficar acordado e cuidar dela durante as noites em que não parava de chorar. Até isso era prazeroso. Não o café, mas ficar cuidando dela.
Só a felicidade dela me importava. Só ela me deixava feliz.
Com nove anos a Bia foi embora. Nem os médicos souberam me explicar como.
Uma morte súbita.
A única coisa que me importava nessa vida tivera ido. Pra sempre.
Perder um filho é como morrer duas vezes. É você morrendo porque uma parte de você morreu, e morrendo de novo porque não pode fazer nada, a não ser lamentar.
Mais uma vez me senti sozinho. E mais uma vez a vida brincou comigo.
Não gosto de brincadeiras.
Não mais.