Não, não estranhe essas linhas. Não seguirão nem uma regra que não seja a de transparecer o que se passa na minha cabeça. Se é que essas coisas realmente se passam aqui.
Provavelmente vou odiar esse texto quando lê-lo na manhã seguinte, assim como um homem faz quando descobre que bebeu demais e dormiu com a mulher errada. (vide Ronaldo, o gordo, que não só errou de mulher como errou de sexo).
Um curto monólogo. As cortinas se abrem.
A luz é fraca. O ator, magro, de cabelos enrolados, dita o tom da ‘conversa’ com uma voz rouca e chorosa.
Usa uma roupa branca, colada. Lembrando muitas vezes a de um bailarino.
Ergue a cabeça.- Por que é tão difícil, complexo e irritante, às vezes? As coisas deveriam ser fáceis. Mas se fossem fáceis não teriam graça, também. Por que me sinto fútil? Por que eu sou, ou por que não arrumo adjetivo melhor?
- Eu não sei de nada?
- …
- Talvez.
- Dá vontade de chorar que nem um bebê de três meses. Tudo parece me incomodar.
- Tenho raiva das pessoas. Das felizes, das infelizes e de mim. Mesmo me enquadrando no último grupo, geralmente. Eu acho, sim.Uma pausa. O homem se move para o canto do palco e pega um copo d’água.
Bebe.- Sou um amontoado de sentimentos. Sempre, eu diria. Em todo e em qualquer instante.
- Não sei. Aliás, essa é a coisa que mais me vejo respondendo. "Não sei". Não sei quem sou, do que gosto e mal sei o que eu quero. Mas sei o que acontece comigo.
- Idiota.- Sinto medo, raiva, alegria, uma nostalgia, o tesão, e de repente, a tristeza. Não me perguntem de onde, nem por quê.
- Eu não sei.
- Mesmo.O homem alto chora como se esquecesse o que tivera acabado de dizer. Caiu em si.
- Boa noite.
A luz se apaga no teatro.
Vazio.
E nem precisou passar uma noite pra eu odiar isso aqui.
não precisa de muitas palavras.
também tenho o problema do dia seguinte.
e adoro a palavra “amontoado”.
abraços.
BINGO !