Marcelo cansou disso.
Pegou uma lista que tivera feito na noite passada, com o nome de todos aqueles que gostaria de mandar tomar no cu. Pegou o telefone, também. E assim se fez felicidade.
A cada novo telefonema feito, costumeiramente com uma pessoa abalada do outro lado da linha, via-se um farto sorriso e um sentimento de realização. Marcelo queria fazer estrago. Marcelo queria exorcizar o que de merda sua vida tinha.
Largou o emprego que lhe causava depressão. Era funcionário público. Odiava gente. Odiava ter que ser educado, hipócrita e odiava, acima de tudo receber ordens. Decidiu: “O chefe sou eu”.
Enquanto comia sucrilhos, no meio da sala daquela casa coberta pelas folhas da estação, lembrou de Julia.
Julia era costumeiramente não observada, ou notada por ninguém no trabalho.
Nem fora dele.
Carregava consigo um desejo de “libertação”. Felicidade gritava ali dentro. “Socorro!”.
Pra felicidade geral, Marcelo não hesitou em convidá-la pra um lanche.
Prato principal? Julia.
A redenção! Uma vitória sobre a estúpida sociedade egoísta e cheia de futilidades.
Uma vitória pros dois.
Chegaram ao ponto de, ainda bêbados, por causa do vinho, jurarem amor eterno.
Antes de beijá-la mais uma vez, Marcelo percebeu um som estranho vindo de cima.
O despertador.
Abriu os olhos. Era segunda e precisava trabalhar.
Procurou os sapatos embaixo da cama.
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