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Changes

Um mês sem escrever. Explicações? Sim.

Ch-ch-ch-ch-Changes
(Turn and face the strange)
Ch-ch-Changes
Don’t wanna be a richer man
Ch-ch-ch-ch-Changes
(Turn and face the strange)
Ch-ch-Changes
Just gonna have to be a different man
Time may change me, but I can’t trace time

David Bowie, Changes

O carnaval veio e foi embora numa velocidade quase tão alucinante, e de uma forma até semelhante, como a do meu namoro. Ex-namoro, agora.
E acreditem, é sério, ela não me abandonou dessa vez. Eu que pulei fora. A loucura bateu na porta e eu abracei. Sempre achei isso idiota. Pessoa tem uma vida legal, segura e do nada larga tudo, e fala um grande “foda-se” pra vida.
Apesar da tomação no cu, foi interessante a experiência. Não me arrependo.

“Não me arrependo”… Odeio clichés, também. Infelizmente minha vida sofre, atualmente, uma sucessão, uma série de clichés.

Jon, Jon...

Ah sim, abandonei a faculdade também (passei numa sexta; matrícula era numa segunda; abandonei num domingo). E o curso de inglês. Também.
Definitivamente eu mudei meu futuro nesses últimos dias. De um sociólogo/antropólogo/cientista pólítico, serei no máximo um professor de Geografia. E não acho isso ruim.

Hoje não quero mais pensar no futuro.
Mentira.
Nem consigo isso. Mas quero pensar menos no que vai acontecer e mais no que acontece. Mas nem sei se consigo isso, também.

Darwin, cadê a seleção natural, hein?

Ela corre

É como se eu não existisse. É assim que é.
Ela surge na minha frente e me paraliza, me bloqueia. A única coisa que consigo transmitir é minha total falta de personalidade, minha total imperfeição como ser.
Me sinto um palhaço, e acho que devo ser um, de certa forma. A faço rir.

Essa coisa de ser imperfeito… todos nós somos e mesmo assim escondemos das pessoas. Tentamos. O que diferencia uma pessoa de outra talvez seja isso, sua capacidade de parecer perfeito. Ou sua capacidade de não parecer imperfeito, como quiser.
Quiçá tenha sido esse meu maior problema, conviver com pessoas incrívelmente capacitadas em tal ato. E assim os dias vão passando numa velocidade maior que o convencional costuma mostrar.

Reflexo da vontade de não estar mais aqui. Não assim.

Voyeur

A mulher que passava em frente ao meu edifício todos os dias, toda arrumada e perfumada, era linda. Meus olhos chegavam à marear quando a via. Ela morava num edifício ao lado do meu e recebia visitas frequêntes de um homem, seu namorado. Esse aparentava ter a mesma idade dela, embora mantivesse um ar mais sério, fechado.

O homem era um desses executivos e trabalhava numa empresa de porte grande, portanto, ganhava horrores. Minha mãe me disse várias vezes que mulheres gostam de dinheiro e, consequêntemente, de homens ricos. Sempre achei que mulheres, acima de tudo, gostam de poder, de ter alguém que demonstre isso, e demonstre bem. Acontece é que nesse mundo capitalista, ‘dinheiro’ e ‘poder’ são sinônimos. É, praticamente.
Nunca tive dinheiro, o que direi de poder. Nunca tive mulheres, também. Sempre que surgiam as oportunidades de conhecer alguém, pulava fora. Só de lembrar me dá dor-de-cabeça. Mulheres sempre me deram isso. Dor-de-cabeça.

Um dia eles brigaram. Ela saiu pelo portão do edifício com passos firmes e cabeça baixa, como se escondesse suas lágrimas das pessoas que estavam na rua. Ele veio logo atrás. Parecia querer detê-la, parecia querer pedir desculpas por algo.
Alguém pare essa mulher!
Pararam justamente em frente à minha janela. Como moro no 9º andar não consegui ouvir bem o que diziam, mas consegui ver claramente quando ela tirou a aliança do dedo e a jogou no chão. Depois disso ele não fez mais nada. Olhou fixamente pra ela durante breves segundos e disse alguma coisa curta. Tão curta que a fez se ajoelhar na calçada, enquanto chorava com mais força.

Ele foi embora e nunca mais apareceu.
Ela permaneceu imóvel durante alguns minutos na calçada.
Deve ter pensado em como foi tola, fútil e ignorante. Ou pode ter pensando em como ele foi covarde, imaturo e obsessivo.

Depois de tanto tempo do ocorrido, fico pensando em como chegaram até aquilo, o que disseram um ao outro e o que se passou pela cabeça dela.
Nunca mais aquela mulher foi a mesma. Ficou irreconhecível. Carregava um peso em suas costas e principalmente em seu olhar. Olhar este, que faz com que meus olhos se emocionem e fiquem mareados, ainda.
Por compaixão.

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Do autor:

@morazen