as pernas de pedro eram finas. afinal, ele só tinha nove anos, e estava a poucos passos de entrar na famosa fase da puberdade.
mas quem disse que idade ou tamanho significa experiência?
um dia, procurando sua caixa de lápis-de-cor, numa gaveta, encontrou uma foto que tivera sido feita a um ano.
era luisa. luisa foi sua vizinha de condomínio durante dois anos. costumavam passar as tardes e parte da noite juntos, brincando, contando piadas ou mesmo assistindo alguma coisa na tv.
luisa foi, também, seu primeiro amor.
era um ano e três meses mais velha. era inteligente, tinha um cabelo ondulado e olhos maravilhosos.
nas últimas férias, sua mãe o convidou pra ir passar umas semanas com sua avó. ela morava numa fazenda, daquelas bem grandes, com cavalos, porcos, galinhas, cachorros, vacas… tinha até uma piscina. pedro estava com “saudades da vovó”. safado.
no dia da viagem, luisa estava inquieta com a possibilidade de passar as férias sozinhas. e o pior: sem ele. sem pedro.
durante um longo abraço, pedro sussurrou algo no ouvido dela. “não teria coragem de te abandonar”. sorriram, e pedro entrou no carro.
três finais de semana passaram e ele voltou. subiu pelo elevador, mas se fosse preciso subiria pela escada todos os oito andares que o levariam até um emocionado reencontro com ela.
correu até a porta do apartamento onde luisa morava. dez segundos passaram parecendo duas horas. a porta abriu.
não era luisa.
era um homem alto, aparentava ter seus trinta anos. agachado, pra ficar do tamanho de pedro, o homem revela ser tio de luisa, e conta que ela precisou mudar de cidade de última hora, por causa do pai. negócios da família…
- acho que ela não volta… – disse o tio.
- … – disse pedro.
teve vontade de chorar.
mas não chorou. “homens não choram em público”, disse uma vez seu pai. correu, dessa vez, pro playground. o dia estava nublado e, por isso, não havia ninguém brincando. sentou no balanço que luisa sempre usava. olhou pros lados, e não avistou uma alma viva. sentindo a pior dor de sua vida, chorou.